Em 2025, a Inglaterra produziu cerca de 16,5 milhões de garrafas de vinho, a segunda maior safra de sua história, puxada por quatro ondas de calor no verão e pela “fruta mais madura de todos os tempos”. No mesmo ano, a França colheu sua menor safra desde 1957 e a Espanha, a menor em três décadas, castigadas por calor, seca e vindimas cada vez mais precoces. O clima já está redesenhando o mapa econômico do mundo, com ganhadores e perdedores lado a lado.
As grandes casas de Champagne estão comprando terra na Inglaterra: a Taittinger investiu £17 milhões em 69 hectares em Kent, a Dinamarca já tem cerca de 90 vinhedos certificados (eram 8 em 2000) e a produção da Bélgica quadruplicou em dez anos. A Inglaterra plantou também seu primeiro olival comercial, algo inviável há uma década, e as zonas de cultivo nos EUA migram continuamente para o norte. No Brasil, regiões como a Serra da Mantiqueira têm tido êxito na vitivinicultura tanto por conta de um microclima favorável quanto por técnicas agrícolas que permitem maior resiliência, como a dupla poda.
O mesmo aquecimento que possibilita novos desenvolvimentos também traz prejuízos. O café arábica saltou 6,71% num único dia, depois que Minas Gerais recebeu quase vinte vezes a chuva histórica da semana e travou a colheita, com a National Oceanic and Atmospheric Administration (do Departamento de Comércio dos EUA) falando em 67% de chance de um “super El Niño”. Não é um caso isolado: o cacau bateu recorde histórico de US$ 12.906 a tonelada no fim de 2024, com clima adverso e doenças na África Ocidental. Depois disso, recuou mais de 50%, num vaivém que é um sinal: a volatilidade climática é também econômica.
Talvez o sinal mais adiantado venha dos seguros. Na Califórnia, State Farm e Allstate pararam de vender novas apólices residenciais, e só os incêndios de Los Angeles em janeiro de 2025 geraram mais de US$ 12 bilhões em indenizações. Na Austrália, um em cada 23 imóveis já é classificado como de alto risco, muitos deles efetivamente sem seguro disponível.
Para o Brasil, a exposição é dupla: somos, ao mesmo tempo, fortes e vulneráveis diante da volatilidade climática. Como potência agrícola, podemos encontrar oportunidades quando o clima reduz a oferta em outras regiões, mas plantamos sob a mesma instabilidade climática global que faz o café disparar e que pesa mais sobre quem tem menos meios de se adaptar, dentro e fora do país.
Preparar-se envolve construir resiliência nas variedades plantadas, na água, em seguros empresariais e proteções sociais e na infraestrutura, por exemplo, para atravessar tanto os choques quanto as boas safras. Como lidaremos com um super El Niño? E se cada vez esse tipo de fenômeno for mais frequente?
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