Namorados virtuais, amigos de bolso, terapeutas disponíveis às 3 da manhã: os aplicativos de companhia por IA se multiplicaram nos últimos anos e viraram um dos temas mais quentes da psicologia , com levantamentos indicando que cerca de um terço dos adolescentes americanos já recorre à companhia da IA para interação social e até relacionamentos.
No entanto, os efeitos disso ainda não estão totalmente claros. De um lado, um estudo de Harvard Business School encontrou que conversar com companheiros de IA alivia a solidão momentânea em medida comparável à interação com humanos. De outro, um estudo da Universidade Aalto, na Finlândia, acompanhou usuários intensivos e encontrou o padrão oposto no longo prazo, de que quanto maior o uso e a autoexposição emocional à IA, menor o bem-estar, maior a dependência e menor a socialização real.
Ainda sobre a questão da socialização, um relatório recente do MIT, baseado em observações e análise prática do uso da IA pelos seus alunos e professores, entre outras questões, aponta uma redução significativa do estudo em conjunto e da socialização em geral na instituição, tanto entre alunos como de alunos com professores.
Há ainda uma outra camada, que o sociólogo James Muldoon, do Oxford Internet Institute, batizou de “companhia cruel”: esses produtos, para além de atender à solidão, a exploram comercialmente, transformando intimidade em mercadoria. Se a rede social otimizou a nossa atenção, o companheiro de IA consegue otimizar até o nosso apego. É importante notar também que o crescimento explosivo desses aplicativos revela o tamanho de uma carência que as estruturas tradicionais, como família, trabalho, comunidade e cidade vinham deixando de atender muito antes do ChatGPT existir.
Companheiros de IA talvez funcionem como apoio temporário e porta de entrada para a construção de habilidades para formar vínculos reais, e já há terapeutas explorando exatamente esse uso. Mas também podemos ter uma geração que está aprendendo a se relacionar apenas com interlocutores infinitamente pacientes, disponíveis e concordantes. E que pode inclusive achar que a interação com humanos é trabalhosa, incômoda e de qualidade inferior.
Que novas (ou antigas) demandas podem aparecer para a sociedade, família, empresas e organizações? Como pode ser o futuro das relações interpessoais nesse cenário e que competências precisarão ser desenvolvidas?
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